Colaboradores

segunda-feira, 19 de março de 2012



Como é difícil virar a página

Tocamos nela quase que viramos

Mas revoltamos a página

Re-volta

Luta luta

E o leite já está derramado

Mas persistimos na página

Qual o caminho para sair dessa encruzilhada

Qual o caminho para sair dessa tristeza

Tempo?

Quem é esse Dono de todas as coisas?

Vira página

Mão não fique receosa

Apenas vire

Apenas Mude.


Flávia Pereira

quinta-feira, 15 de março de 2012

Eles


ELA

A menina rodopiou com seu vestido azul

Tivesse flores, talvez

Tinha apenas 16

Tinha vergonha da sombra e suas pernas delgadas também

Sabia ser menina, mas queria ser mulher

Ai ela tropeçou num lugar qualquer e viu

ELE

Que desajeitado de olhos lindos

Quem será ele

Camiseta branca

Como seus braços

Cabelos dourados

Como o sorriso

Eleolhoua

Curiosidade

Nem começo teve foi só olhar

e a certeza de mais uma ilusão

mas decidiram ficarem cercados de incertezas

e o tempo passou...

Flávia Pereira

quarta-feira, 14 de março de 2012

Pra que Fernanda?

Eu respondo a essa pergunta quase todos os dias, acabo sempre respondendo com respostas prontas e objetivas, talvez porque canso de ser interrogada ou simplesmente porque a resposta é complexa, às vezes demorada e quem pergunta tem a pressa semelhante à pergunta: tudo bem?

Mas hoje é diferente, porque quem me perguntou Pra que Fernanda? Pra que Vegana? Fui eu mesma, e não quis uma resposta simples e nem objetiva...

Para tentar me responder lembrei de quando tudo começou... A final já vai fazer dez anos que essa história me rodeia... Quando eu fazia quinze anos iniciei uma fase de vida que denominei: Sexo, Drogas, Rock and roll, Filosofia e Amizade. Encontrei um grupo de pessoas que tentava arduamente viver na paralela, quase como uma vida alternativa, eles discutiam o que era o amor, a liberdade, o vegetarianismo, a anarquia, e tentavam vivenciar... E eu vive no meio dessas discussões, me rasgava em conhecimento e em reflexão. Ouvia eles esbravejarem contra o sistema capitalista, as explorações, a falta de vida e de liberdade, e eu cantei suas letras...

Fui rasgando toda minha pele, todos os fios condutores de verdade, tudo o que eu carregava como “natural”; e entendia pouco a pouco que tudo o que acreditamos e vivemos é uma construção, e que sendo uma construção pode ser reconstruído.

E aquele grupo tentava viver uma reconstrução. Com tropeços, com queixas, com medos, com inseguranças, mas foi ali que eu aprendi que o mais bacana da vida é “mudar quando é lua cheia...”

Com o passar dos anos as questões foram crescendo dentro de mim, como milhares de fios que vão se espalhando pelo corpo até criarem seu próprio corpo. Em torno dos meus dezessete anos eu já sabia o que eu não queria, então decidi que não comeria mais carne, foi uma escolha mais emocional do que racional como a maior parte das minhas escolhas. E foi ai também que eu comecei a entender que a minha pele é quem fala mais alto em mim...

Não foi uma mudança fácil e nem simples, como eu acabo dizendo que foi contrariando a minha própria filosofia da construção. Brigas para tudo quanto é lado, como assim? Você vai morrer! Vai ter anemia! Vai ficar sem músculos... Eu quase não respondia, porque eu não sabia responder... ou esbravejava ou chorava, o que também mais pra frente entendi: que as minhas lágrimas são as que mais alto respondem por mim, mas ainda vou aprendendo a não ter vergonha delas e a saber responder de outras maneiras com elas sempre presentes.

Alguns anos depois foi embarcada pelas reflexões que tal escolha abrangia, muitas e muitas... E fui agregando racionalidade à minha escolha. Decidi ser vegana, agora numa decisão equiparada entre pele e razão, já que me corpo começava a recusar determinados alimentos enquanto eu ia conhecendo outras pessoas de vida paralela... ah as pessoas de vida paralela, como me alegra saber que elas existem, mais ainda quando estamos por perto.

A minha escolha não é por uma vida saudável, nem pelo desmatamento, nem por dó...

Aprendendo e refletindo sobre mim, sobre o que acredito, minhas utopias, entendendo os fios que crescem em mim, sim eles continuam crescendo aqui dentro, e sentindo pulsar e sangrar o que repudio. Eu quero vida, eu quero liberdade, e não estou viva e nem livre enquanto qualquer animal, humano ou não, não o for... livre, livre, livre... Me angustia profundamente saber que há animais, humanos ou não, que nascem para servir ao homem, alguns com o trabalho, outros com a carne, outros com o leite, outros com os ovos, outros com os ossos, outros com a pele, outros com a força, outros, outros, outros...

E entendi que não consigo e que não quero colocar pra dentro de mim, que não quero comer (sim sou uma pessoa que acredita no poder das metáforas) o que não quero que seja a realidade... Tento então em tudo quanto for possível viver o que acredito.

Vixe! Isso vai mudar alguma coisa? Talvez sim, talvez não. Mas acredito na simbologia de ações paralelas ao que se tem como natural. Eu acredito na construção e por isso tento construir com o meu corpo, com as minhas atitudes, com as minhas relações a minha utopia: liberdade e vida.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

A pele dela decidiu desta vez

Cansou-se de ser decidida
De não responder às melhores coisas
Da vida
E do seu corpo

As coisas que fogem da razão do outro
E encontram na sua pele um sentido de ser

Então ela:

Abriu-se em janela
Em ar

Foi com tudo que ouviu
Dançou
Voou
Beijou

Abriu-se em torneira
Em água

Foi com tudo que lhe molhava
O espírito
A saliva da boca

Dançou com os poros que ficaram no ar
Voou com os ruídos que o ar deixou
Beijou, beijou-se no ar

Foi com qualquer sinal que o seu corpo reconhecia
Um reconhecimento seu
Reconhecido na saliva

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Carnaval já tem seu fim na terra das marias

Todo mundo se preparando para viajar e descansar, todo mundo não... aqui no prédio que trabalho as MULHERES da limpeza vão trabalhar... o carnaval mal começou e já teve seu fim... e elas ainda me disseram “achei que ia colocar a minha casa em ordem nesse feriado”... donas de casa, mulheres da limpeza onde quer que estejam, são as donas marias...
Ah! Dona Maria! Quem mandou não estudar? Tem oportunidade pra todos nessa vida, ta certo que só uns poucos vingam... Assim você teria que ser dona da limpeza de apenas uma casa... afinal se todos tiverem oportunidade de estudar, de crescer na vida, crescer e aparecer!, ganhar dinheiro, ter as sonhadas propriedades: o carro e a casa, como é que nós ficaríamos? Quem vai limpar a NOSSA sujeira?
E eu como sei que o carnaval das donas marias desse prédio já teve fim? Sei porque almoço com elas todos os dias... olho para todos os lados do refeitório, mas acabo sempre do lado delas... talvez seja porque tem uma dona Maria lá em casa, e sempre me senti bem perto dela, minha mãe, que é dona da limpeza em três casas há uns 45 anos, desde seus 8 anos de idade!

Bora dona Maria
Limpar a sujeira que é toda SUA
Toda SUA de limpar

Bora dona da limpeza
Mariar nas casas
Ser Maria em todo lugar

Bora dona de casa
Cuidar do que é teu
A casa é mais tua


É tua Maria!
Tua casa
Tua sujeira

Bora ser escrava e mariar


Fernanda Moreno

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012



ADEUS AS CARTAS

QUANTAS PALAVRAS E IMAGENS
AGORA CHEGA DE REMINISCÊNCIAS
ENQUANTO AS FOLHAS PASSAM PELOS MEUS DEDOS,
PEQUENOS PAPEIZINHOS SOLTOS
UM FIO DO QUE SOU
UM ELO PERDIDO
AMIZADE SOLTA
MAS A CERTEZA DO QUE SOU QUE PASSA PELAS LINHAS
AGORA É MEMÓRIA
AGORA É HISTÓRIA
A MINHA HISTÓRIA.

FLÁVIA PEREIRA

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Do que vivo

Um contorno
Uma marca no olhar
Um desenho no ar

De linhas curvas ou retas
De pele dita ou pontuada
De tamanho ou leveza

Voz fraca, reta e direta, ou torta e indireta, ou reta e indireta, ou torta e direta,
Ou nada disso

Cada contorno no ar
Cada pele que fica
Cada dizer pontuado por quem se é

Uma profundidade indizível
Uma diversidade apaixonante

Apaixonada
Por ver e sentir
Diversos contornos no ar

Olhares
Vozes
Andares
Ações
Posições
Movimentos
Pensamentos

Modulam o ar por onde passam
Por onde ficam

São seres
São coisas
São contornos no ar

...



Fernanda Moreno